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O Casamento de Rachel
 

Inesperado sucesso de público, O Casamento de Rachel faz ressurgir um talentoso e criativo cineasta Jonathan Demme, o qual promove uma exposição comovente das relações de uma família abalada por uma tragédia. No Cinema de Arte, até quinta-feira.

PEDRO MARTINS FREIRE
Crítico de Cinema

Uma câmera insinuante e com total liberdade de movimentos adentra uma casa e vasculha, paulatinamente, os ambientes e personagens. Esse efeito da câmara na mão propicia ao diretor de fotografia Declan Quinn construir planos seqüências, dar um aspecto documental e conceber uma estética despojada, cuja marca principal é a simplicidade. Como resultado, O Casamento de Rachel ganha um estilo entre o antigo “cinema verdade” e os recentes filmes dinamarqueses do Dogma.
O Casamento de Rachel marca o retorno de Demme ao enredo de ficção após quatro anos de ausência – seu último trabalho fora o “remake” de “Sob o Domínio do Mal”, em 2004. Toda a construção dramática dos acontecimentos desenvolvidos em O Casamento de Rachel se constituem em torno da personagem Kim Buchman (Anne Hathaway, inCdicada ao Oscar pelo papel), uma dependente química em recuperação em retorno ao lar às vésperas do casamento da irmã, Rachel (Rosemarie DeWitt).

Kim, tida como a “ovelha negra” da família, traz dentro de si um enorme sentimento de culpa, o qual a consome. O cigarro, constante manipulado em maneirismos na boca e mão, parece ser a válvula de escape da tensão que a tragédia a marcou no corpo e na alma. Para todos, Kim é uma bomba prestes a explodir com seu comportamento rebelde. Mas ela é, no fundo, uma solitária.

Três aspectos devem ser observados pelo espectador, pois funcionam como lição de cinema para o entendimento dos Buchman: primeiro, a forma paulatina como a família tem as relações descortinadas à medida na qual Kim volta a se familiarizar com os ambientes da casa. Segundo, a não explicação dos motivos da separação dos pais, Paul (Bill Irwin) e Abby (Debra Winger); e a mais importante de todas as observações, a naturalidade e equilíbrio como trata de um casamento multiracial. Brancos e negros juntos, num patamar de igualdade – e não poderia ser diferente. Sidney (Tunde Adebimpe), o noivo, é um tremendo bom caráter de uma família de cor mais ajustada.

Mas, é essa honestidade que faz de O Casamento de Rachel uma obra de relevância, principalmente em expor uma tragédia e evitar os seus culpados. Assim, não há a manipulação do espectador. Sobram as respostas não obtidas, como a que Rachel formula para a mãe. Mas, é essa ausência de respostas que faz com o espectador traga para si as dúvidas e as reflita, discuta as questões e personagens expostos pelo filme.
Tratando da dor da perda, o enredo expõe, de forma realista, sem pieguismo ou exageros, as conseqüências trazidas para dentro das famílias quando estas não tomam uma postura ao descobrirem que seus filhos estão se deixando contaminar pelas drogas. Não se trata de uma “mensagem”, mas de uma reflexão colocada à disposição dos espectadores. O Casamento de Rachel resulta num belo filme sobre filhos e pais e as relações obrigatórias de amor, entendimento e superação.

O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married, EUA, 2008), de Jonathan Demme. Com Annie Hathaway, Rosemarie DeWitt, Bill Irwin e Tunde Adebimpe. Multiplex UCI Ribeiro/Cinema de Arte. Faixa Nobre, 19h30, em cartaz até quinta-feira. 118 minutos. Sony. 14 anos.

 

 
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