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Eu sou a Lenda
 

“Eu Sou a Lenda” aborda o fim da civilização e promove uma discussão entre a Ciência e Deus na articulação das ações humanas, explorando, também,a retomada do mundo pela natureza com o apocalipse da humanidade. Em cartaz na HBO.

PEDRO MARTINS FREIRE
Crítico de Cinema

Maior fenômeno do cinema neste início de ano, Eu Sou a Lenda assume um posto de inesperada polêmica. Há quem o ame, há quem o deteste. No entanto, entre as vastas opiniões emitidas, evitaram os críticos dos prós e dos contras em enveredar pelas diversas temáticas desenvolvidas no roteiro de Mark Protosevich e Akiva Goldsman, cujo ponto de partida é a tragédia da humanidade, a qual permeia todo o desenvolvimento da película. Embora se situe apenas acima da média, a obra de Francis Lawrence pede, sim, uma visão filosófica, não uma análise técnica ou uma abordagem de referências a outras películas da ficção-científica.

Eu Sou a Lenda trata das possibilidades. Humanas, científicas, religiosas. Existe sim, em seu interior, uma série de embates envolvendo a ciência, a fé religiosa, a existência humana, o apocalipse da humanidade, a retomada pela natureza de seu espaço tomado pelo homem na construção de sua civilização, o valor da intuição, a esperança e a comunicação espiritual no homem. Não que esses temas sejam abordados com veemência, mas têm uma exposição suficiente para despertar a percepção e a sensibilidade do público.

Deus ainda nos ama. Nós ainda amamos Deus”. A frase aparece numa placa corroída pelo tempo, na sequência inicial de Eu Sou a Lenda, a qual revela uma Nova York de cenário surrealista, deserta, de carros em corrosão e, em meio aos prédios outrora imponentes e agora em processo de decadência, a vegetação se ocupando de retomar o seu espaço e a vida animal a renascer em sua primal tarefa de existência: matar para sobreviver.

O cenário apocalíptico revela a tragédia da civilização, contada a partir do anuncio, por uma cientista, da descoberta da cura do câncer. A partir daí, coloca a Ciência em incômoda situação.

Neville, personagem triste e solitário, surge como o herói dessa tragédia. Sua jornada interior de solidão remete ao sentimento de perda dos entes queridos e do fracasso perante a descoberta de uma vacina capaz de eliminar o retro-vírus e salvar a humanidade da extinção. Daí a sua falta de fé. Ao mesmo tempo, um homem em luta contra perda da sanidade, expressada nas conversas com os cães e bonecos de forma humana, a passagem cotidiana pela locadora, o expediente no cais.

Os infectados, expostos como mutantes tomados pela incontida e primal selvageria humana, direcionam seu ódio para Neville porque ele é um cientista, visto assim como culpado pela tragédia. Infelizmente, o roteiro não explora a racionalidade do Macho Alfa (Dash Mihor), o líder dos infectados, e ainda comete o deslize de apresenta-los como caricaturas de figuras de vídeo-game.

O filme retoma sua linha de reflexão com a entrada de Anna (Alice Braga) e do menino Ethan (Charlie Tahan) na história. Anna surge não apenas como a sobrevivência da fé, mas a esperança da sobrevivência da raça humana.
A Cena em que Anna (Alice Braga) olha os retratos dos infectados transformados em cobaias e pergunta como Deus pode fazer isso, Neville, ao pronunciar um lacônico “Deus não fez isso Anna, nós fizemos”, reconhece a falha humana na criação da vacina que deu origem à aniquilação humana, mas ainda assim não deixa de acreditar que encontrará a cura.

Para Anna, Deus tem um plano: o da segunda chance. Nessa leitura estabelecida entre o existencialismo e a religião de Eu Sou a Lenda, a fé se estabelce como um processo pessoal, a espiritualidade, um sentimento universal.
Na verdade, o filme trilha a contemporânea dualidade humana contida na perplexidade de encontrar a si mesma na divisão entre a aceitação de Deus como seu criador e a negação existencial do sentimento da espiritualidade. Em paralelo, as conquistas promovidas pela ciência desafiando a fé e estabelecendo o antagonismo.
O enredo poderia ter ido mais longe na abordagem dos embates humanos.

Eu Sou a Lenda (I am Legend, EUA, 2007), de Francis Lawrence, com Will Smith, Alice Braga, Dash Mihok e Salli Richardson. 118 minutos. 14 anos.

Veja na HBO:

Dias 17 – 22h05; 21 – 20h15; e 29 – 0h35.

Na HBO 2:

Dias 17 – 01h05; 21 – 21h10; e 23 – 17h30.

 

 
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