Em “Um Faz de Conta que Acontece”, a fantasia adentra a realidade para transformar um fracassado sujeito de bom coração em um vencedor, numa história sem os vícios das lições de moral
PEDRO MARTINS FREIRE
Crítico de Cinema
Fantasia e fábulas são como marcas para os estúdios Disney. Nenhum outro tem o dom de trabalhar e dar forma crível a histórias com esses elementos. A Walden Média, por exemplo, até agora não conseguiu superar a sensação de artificialidade de suas produções, o mesmo ocorrendo com outros estúdios menores.
O enredo de “Um Faz de Conta que Acontece” parece, em seu início, absurdo demais para ser levado a sério como uma comédia capaz de mesclar com qualidade a fantasia e a fábula com a realidade. Essa “sensação” vem do fato do personagem vivido por Adam Sandler ter aquele comportamento irritante do americano adulto de alma infantil, meio apalermado e de miolo mole.
Mas, o processo do roteiro é estabelecer esse personagem, Skeeter Johnson, como um sujeito de bom coração, incapaz de se impor por suas qualidades - as quais, por excesso de humildade, prefere negá-las –, que através da relação com os dois sobrinhos, Patrick (Jonathan Morgan) e Bobbi (Laura Ann Kesling), e a descoberta de uma crescente simpatia por Jill (Keri Russell), a amiga de sua irmã Wendy (Courtney Cox), vai percebendo os reais valores pessoais e da vida.
O diretor Adam Shankman, um veterano da casa Disney (onde realizou “A Casa Caiu” e “Operação Babá”), vai traçando com competência a história do garoto que adorava tanto o hotel do pai que resolveu continuar morando nele após ser vendido para o hipocondríaco senhor Nottingham (Richard Griffiths). No componente dramático da história, ele fica aguardando que Nottingham cumpra a palavra dada ao seu pai de um dia entregar-lhe o gerenciamento. Mas o velhinho não reconhece o seu trabalho dedicado, de corpo e coração, ao estabelecimento.
O enredo trata da reparação da injustiça pela incomum via do desejo. E esse
desejo surge através da descoberta de que os desfechos das histórias que ele inventa e narra para os sobrinhos se transformam em realidade no dia seguinte. As histórias, ambientadas na Grécia antiga, época medieval, velho Oeste e no espaço sideral ganham relevância na realidade, mudando o curso dos acontecimentos.
O problema do filme está no roteiro não consegue dar uma unidade sóbria aos acontecimentos, os quais, em algumas passagens, soam como “estanques”, colocadas ali à força. Em todo caso, a história funciona através dos ótimos efeitos especiais e do tom de fábula que Shankman consegue adicionar à narrativa, dando sentido a uma história que não se compromete com as lições de moral ou o tradicional pieguismo.
“Um Faz de Conta que Acontece” é um dos sucessos dos cinemas dos EUA neste início de temporada. Em três semanas, já arrecadou quase US$ 100 milhões. O carisma de Adam Sandler e o carinho com trata as crianças são fatores positivos que o recomendam.