Inesperado sucesso de bilheteria, Crepúsculo, de Catherine Hardwicke, conquista o público ao narrar uma história de amor transcendente entre uma humana e um vampiro, numa obra que transborda poesia e romantismo com rara inspiração
PEDRO MARTINS FREIRE
Crítico de Cinema
Quando Crepúsculo, uma modesta produção de US$ 37 milhões feita pela Summit, um pequeno estúdio independente, estreou nos EUA há quatro semanas obtendo uma extraordinária bilheteria superior a US$ 70 milhões (hoje contabiliza cerca de US$ 160 milhões), façanha para blockbuster tipo Harry Potter, a surpresa foi geral. Particularmente, ficamos a indagar o que teria de especial esse filme para alcançar tamanha proeza. Só assistindo a Crepúsculo para encontrar a razão do sucesso: a diretora Catherine Hardwicke simplesmente criou uma das mais belas histórias do amor já vistas no cinema. Uma história de amor transcendente, moldado à realidade dos ritos de passagem vividos pela juventude com seus conflitos, incertezas e angústias, na atração e a ansiedade que antecedem a germinação dos sentimentos e a aceitação da relação amorosa. Ou seja, o filme trafega na linguagem e nos sentimentos do público jovem. A identificação é imediata.
Espécie de um Romeu e Julieta pós-moderno, Crepúsculo desenvolve a história de uma adolescente de 17 anos, Bella (Kristin Stewart, de “Na Natureza Selvagem”), que deixa a casa da mãe em Phoenix quando ela se casa de novo e vai morar com o pai, policial na pacata Forks, nas montanhas da Califórnia. Na escola secundária conhece Edward Cullen (Robert Pattinson, de Harry Potter e a ordem da Fênix), um tipo meio esquisito pelo qual logo se sente atraída. A paixão imediata vai moldar uma tocante história de amor de impossível concretização.
A diretora Catherine Hadwicke e a roteirista Melissa Rosenberg (da série de TV Dexter), tiveram uma grande sacada na adaptação cinematográfica: tiraram a história do mundo da fantasia e a moldaram à realidade da sociedade humana, inserindo todas as questões e dramas pertinentes ao mundo dos adolescentes em seus ritos de passagem para a idade adulta. Essa puxada do mundo da fantasia para o mundo real concede veracidade a uma história envolvente e emocionante, tratada com sensibilidade e poesia pela cineasta.
Essa história de amor tem sua razão na complexidade da natureza em que os amantes jamais concretizam a relação carnal e movimentam uma tensão sexual onde o desejo vira tormento. Ela quer entregar-se, perder a sua natureza humana, o preço do seu amor. Ele a recusa, não quer trazê-la a sua imortalidade, igualmente permeada de dor. “A cada dia chego mais perto da velhice”, diz ela. “É assim que tem de ser”, ele responde. O fosso da dor que separa duas formas de natureza e que os faz sentir esse amor apenas no “ficar juntos” - sob a cumplicidade do toque de dedos, da respiração e do olhar. E nesse embate entre querer, desejo e recusa que o filme pega os jovens pela goela, tocando-os na emoção e singeleza dos sentimentos. Tudo parece girar em torno do sacrifício, pois tudo parece complicado, doloroso e difícil. A essência dessa condição se expressa na cena em que eles tocam Clair de Lune, a singela melancolia de Claude Debussy.
Crepúsculo, ao adentrar o mundo dos jovens com sua terna história de amor entre a fantasia e a realidade, faz efeito com seu romantismo rasgado e transbordante. Fala uma linguagem: a dos jovens. O efeito é transcendente. Crepúsculo (Twilight, EUA, 2008), de Catherine Hardwicke. Com Kristin Stewart, Robert Pattinson, Billy Burke e Peter Facinelli. 121 minutos. Paris. 14 anos. Lançado nos EUA em 2005, “Crepúsculo” (no Brasil pela Editora Intrínseca) e suas seqüências, “Lua Nova” (2006), “Eclipse” (2008) e “Breaking Dawn” (2008), rapidamente viraram fenômenos ao perfazerem 91 semanas consecutivas no primeiro lugar do “Ranking dos Mais Vendidos”, do The New York Times, com tradução para 37 línguas e 17 milhões de cópias vendidas. Escrito por Stephanie Meyer, 35, a partir de um sonho que teve de uma jovem falando com um atraente vampiro numa floresta, a série terá, segundo a autora, o total de dez romances (P. M. F.).
A Summit anunciou, na semana passada, que o diretor de “Lua Nova” (que começa a ser filmado no início de 2009 para lançamento em dezembro), e possivelmente “Eclipse” (também com filmagens previstas para 2009), será Chris Weitz. O cineasta, de 39 anos, começou a carreira em 1999 com “American Pie – a Primeira Vez é Inesquecível”, fez a refilmagem de “O Céu Pode Esperar” (2001), mostrou talento com “Um Grande Garoto” (2002) e por último, a desastrada adaptação de “A Bússola de Ouro” (2007). Catherine Hardwicke saiu da produção por não aceitar a antecipação das filmagens, o que iria atrapalhar seu método de trabalho (P. M. F.).