Foi-se o tempo em que os filmes de animação visavam apenas divertir as crianças. “Madagascar 2” não apenas cumpre essa função como oferece ao público adulto uma história tratando de origem, raízes e identidade
PEDRO MARTINS FREIRE
Crítico de Cinema
Os filmes de animação feitos a partir da Pixar e da Dreamworks fazem dos animais espelhos da sociedade humana. “Desenho animado” como produto exclusivamente para a diversão das crianças é coisa do passado. Aí a Disney fez história, mas acabou se perdendo ao não perceber a necessidade da transformação imposta pela modernidade.
Pixar e Dreamworks sacaram essa importância do novo fundamentada na criatividade e mudaram, através da animação digital, da concepção à estrutura do gênero. Os adultos foram convidados a participar da diversão através de enredos inteligentes e seus novos elementos – a paródia e subversão ao próprio gênero e seus personagens, equilíbrio entre humor e dramaticidade, o desenvolvimento de temas como as relações familiares, a natureza, a amizade e até a morte, entre outros.
Produção da Dreamworks, “Madagascar 2” avança no gênero. Preserva as características do filme-piloto – que tratava da amizade - e amplia as temáticas. No centro delas, a origem – ou seja, as raízes e identidade.
No entorno, a questão das raças, as diferenças e a diversidade na natureza.
O cenário não poderia ser outro senão a África, o berço da vida. É dali que o leãozinho Alakay, raptado, vai parar no zoológico de Nova York, onde faz sucesso exibindo seu dom para a dança. Entre os amigos, a zebra Marty, que sonha em retornar ao convívio dos seus nas estepes africanas.
Eles retornam à África. A euforia, um congraçamento marca um grande encontro entre os animais a partir da chegada de Alakay, imediatamente reconhecido pela mãe. No retorno à origem, o reconhecimento de Alakay à sua terra quando, ladeado pela mãe e o amigo Marty, ao vislumbrar um por do sol belíssimo lança-se à percepção: “pessoal, pertencemos a este lugar”. A valorização à própria a origem.
Outros aspectos acrescentados à África de Marty e Alakay são as riquezas naturais (Moto-Moto, escavando em busca de água, só encontra diamantes e ouro) a resistência das tradições (através da qual Makunga, o vilão, se apossa do cetro do poder) e o misticismo (Julian, o rei lêmure, busca quem se sacrifique no vulcão pela comunidade).
Mas a riqueza de “Madagascar 2” reside nas observações a questões como raça e diferenças. Na diversidade imposta pela natureza, uma galeria de personagens reflete comportamentos humanos, suas fragilidades e grandezas. No primeiro, há quem ambicione o lugar do outro (Makung, o leão vilão), há quem não saiba romancear e reverenciar as qualidades femininas (Moto-Moto e seu narcisimo, “um nome tão sexy que tem de dizer duas vezes”) e quem seja místico ou fanático religioso (como Julien, o líder dos lêmures). Na grandeza, o respeito aos outros em suas diferenças e o reconhecimento do erro (a briga entre Alakay e Marty), a grandeza dos pais (Zuba abdica do trono na falha do filho), a busca da redenção (a jornada de Alakay pela água), o valor da amizade, e por aí vai...
Destaque-se, ainda, a inventividade do roteiro na concepção de alguns personagens e elementos afiados: a velhinha movida pela coragem e sua inesperada presença no desfecho da história; a brincadeira com o tubarão que adentra a selva; e o chapéu da desonra ostentado por Alakay, uma homenagem irônica à Carmen Miranda – reforçada, na trilha sonora, com Barry Manilow cantando, de sua autoria, “Copacabana”. “Madagascar 2” cumpre a função de divertir às crianças e adultos. Com categoria.
Mais informações
Madagascar 2 (Madagascar 2, EUA, 2008), de Eric Darnell e Tom McGrath.
85 minutos. Livre.