O teletransporte é uma das mais fascinantes temáticas da ficção-científica, a qual já teve muitas de suas possibilidades concretizadas pela ciência – e na lista das transformações citamos as naves espaciais, o submarino, o raio laser, os computadores, o relógio de pulso, a televisão a cores, a comunicação via satélite, o celular, a câmaras de televisão, a tecnologia digital, a comida sintética, o transplante de órgãos, a Internet, as descobertas genéticas, o ciberespaço, a realidade virtual, entre outras. Empregado de forma fascinante na série “Jornada nas Estrelas” e explorado em outros filmes do gênero, o teletransporte encontra o seu pior momento no filme “Jumper”, de Doug Liman, em exibição na cidade.
O teletransporte, filho da ficção-científica, ainda engatinha como um dos sonhos da ciência em seus rumos de pesquisa. Segundo cientistas, o teletransporte quântico estabelece a destruição do original, que será reduzido em partículas, e restabelecido, como uma cópia, em outro lugar determinado. Nos testes de teletransporte feitos até agora, cientistas conseguiram mover apenas um único próton, que percorreu 3,5 quilômetros. Para concretizar a pesquisa, precisaram de um outro próton, basicamente um parceiro, e o colocaram no lugar onde o primeiro deveria chegar. Esse segundo próton recebeu apenas a essência do primeiro.
O problema de “Jumper” não está na capacidade de seus heróis se teletransportarem, ao sabor do desejo, para qualquer lugar do planeta, mas sim na maneira como o tema é maltratado numa história sem nexo – e sem rumo na corretíssima colocação de Isabella Boscov – e imaginação. Os personagens, que deveriam conquistar o espectador, são mal desenvolvidos pois ao enredo só interessa a correria da ação. Ação esta que, quando dá uma trégua, leva os acontecimentos à monotonia e ao desinteresse. O personagem central, vivido pelo inexpressivo Hayden Christensen, o Anakin Skywalker do horrososo “Star Trek – a Vingança dos Sith” (2005), não consegue transmitir vivacidade e atração ao público. Millie (Rachel Bilson, a Summer Roberts da série de TV “O. C” e a namorada que se sente traída em “Um Beijo a Mais”), mocinha, desenvolvida de forma pífia, quase não tem função na história. E a inclusão de Mary Rice (Diane Lane), que deveria ser o maior elemento dramático como conflito da origem no filho, só consegue por ainda mais confusão a um enredo vazio de sentido e propósitos. Quanto a isso, a trama desperdiça, ainda, o vilão Rolland (Samuel L. Jackson), o líder de uma organização secreta que caça aos “jumpers” através dos tempos. A motivação da caçada seria o poder de “saltarem” no tempo. Mas, porque a perseguição? por fatores religiosos, políticos, genéticos? Ou seja, ao enredo não interessa juntar os elementos, não deixar “pontas soltas”, e dar-lhes um caráter de finalidade, de realidade.
Surpreende o fato de um cineasta talentoso como Doug Liman, realizador do envolvente “Vamos Nessa!” (1999) e do surpreendente “Identidade Bourne “ (2002), tenha assumido a produção de “Jumper”. Prova de diretor de talento nem sempre salva filme que tem roteiro ruim. Com isso, “Jumper” se candidata a um dos postos de pior filme do ano.