Na cena inicial de “Across the Universe”, a garota Prudence canta, de forma melancólica, a canção “I Want to Hold Your Hand” entre os jogadores de um time de futebol americano enquanto a câmara se desloca para focar um dos atletas e uma torcedora em atitude romântica. A aparência de que ela esteja cantando sua “dor de amor” para o jogador logo se desfaz e remodela-se sinalizando “uma dor reprimida”, mas pela garota.
A diretora e roteirista Julie Taymor começa “Across the Universe” falando da repressão vivida pelos jovens. A repressão familiar, a repressão aos sentimentos, a repressão que tolhia o agir. Claro, no desenvolvimento da história, o filme irá enfocar como essa repressão foi deixada de lado, superada e transformada em expressão de liberdade, estabelecendo uma mudança radical no processo da História.
Quem foi jovem nos anos 60 irá curtir com especial sentimento e nostalgia a este belo musical de Julie Taymor, uma radiografia impecável daquela década revolucionária que transformou o mundo e deu voz à juventude, a qual, por sua vez, institucionalizou o direito à rebeldia contra tudo aquilo que estava posto, não apenas sob o âmbito familiar, mas igualmente social e político. Com uma energia contagiante, “Across the Universe” faz uma perfeita união entre som e imagem ao utilizar-se de 33 canções da banda The Beatles ajustando a dramaticidade e formalizando os históricos acontecimentos que se desdobraram naquela década. As canções moldam-se aos acontecimentos, como que conduzindo a história e os atos dos jovens na criação de um ideal de mudanças. Todos esses acontecimentos estão, de certa forma, contidos em “Across the Universe”. A discussão entre Lucy e Jude sobre o agir, expressa esse contexto. Ela acredita no resultado da ação estudantil, nos atos de protestos que tomaram as ruas contra a guerra do Vietnã, nos movimentos que deram espaço aos jovens de soltarem a voz, na eclosão dos movimentos sociais.
“Eu me deitaria em frente a um tanque se pudesse trazer o meu irmão de volta da guerra”, diz ela. “Mas isso não viria a acontecer”, diz Jude, descrente. A resposta dela representa a essência da juventude da época: “Mas significa que você não acha que eu deva tentar?”. A juventude dos anos 60 teimou de tentar e acabou por mudar a história através do acreditar na ação de seus atos. Aquela juventude foi ousada. Jude representa um outro aspecto: o engajamento do artista no processo político. A arte passa a se expressar como instrumento de protesto. O cinema, a música, a literatura, as artes plásticas e o teatro aglutinaram-se tomando o rumo do protesto. No filme está sintetizado quando Lucy adentra ao ateliê de Jude e se depara com os morangos sangrando nas telas, e no “show” no topo de um prédio, interrompido pela polícia.
Taymor, lúcida e antenada, não esquece de homenagear outros artistas que também influenciaram os jovens a uma mudança. O personagem JoJo representa Jimi Hendrix (1942-70), cuja maestria com a guitarra a fazia praticamente falar, enquanto Sadie reverencia a cantora Janis Joplin (1943-70), cujas canções, em sua maioria, expressavam a dor e a perda.