“A Bússola de Ouro”, com sua narrativa atrelada a uma ação incessante e que deixa de fora toda uma gama de informações sobre o universo paralelo no qual se desenvolve, oferece pouco para o espectador entender a sua trama. Ou seja, os produtores preferiram não trazer para o filme as polêmicas ateias e anti-religiosas a fim de não confrontar-se, principalmente, com a Igreja Católica. O resultado é um filme insosso, frio e sem refletir a imaginação e fantasia que propõe expor na tela.
Ainda na trilogia, Pullman conceitua a malignidade numa instituição chamada de “Magisterium”, cujos membros se vestem como religiosos, seqüestram crianças e as separam de seus “daimons”, num plano sórdido para se apoderar da Bússola Dourada, instrumento que revela o futuro. Católicos e protestantes se sentem ofendidos com a exposição, pois o nome “Magisterium” se refere às duas Igrejas.
E Lyra Belacqua, a pequena heroína, é, na trilogia, perseguida pelo grupo religioso por ser vista como uma espécie de nova Eva, ou a representação de Maria Madalena, além de possuir a Bússola Dourada, que contem “a verdade suprema”, aspecto que engrossa a frente anti-religião de “O Segredo”, “O Código Da Vinci” e outras publicações e filmes.
“ Bússola de Ouro” decepciona. A produção, visualmente “quadrada”, tem uma narrativa apressada, numa tentativa de condensar as mais de 400 páginas do romance. Com isso, ficaram de fora todas as implicações que levaram o Vaticano a acusar o livro de divulgar o ateísmo.
Nesse processo, o grande erro da adaptação é o de negar os detalhes da trama, deixar de ressaltar os propósitos das entidades malignas e deixar dúbia as reais intenções da aparentemente vilã interpretada por Nicole Kidman, numa atuação aquém de seu talento. O filme sobrevive como uma aventura de ação, sem magia e sem fascínio, incapaz de emocionar o público ou promover a simpatia deste pelos personagens. Diferentemente de “O Senhor dos Anéis”, por exemplo, que leva os espectadores para dentro de seus acontecimentos graças a capacidade criativa de Peter Jackson.