“O Ano em que Meus País Saíram de Férias” é o segundo trabalho de Cao Hamburger. Criador do programa de TV “O Castelo Ra-tim-bum”, estreou no longa-metragem com uma versão para o cinema, produzida em 2000, a qual, além de bem recebida pela crítica, foi um dos sucessos comerciais daquele ano.
O filme é uma jóia rara ao conciliar o drama familiar ao político, concluindo-se em processo histórico, efeito o qual os argentinos são mestres. Retrato fiel da época da ditadura militar, tem um grande parentesco com “Quando Meus Pais Saíram de Férias”, produção iugoslava datada de 1985 dirigida por Emir Kusturica, na qual uma mãe inventa para o filho que o pai ausente saiu “em viagem de negócios”, quando na verdade está fugindo do conflito político envolvendo Tito e Stálin.
Assim como o filme de Kusturica, a criação de Hamburger opta pela exposição política sob o olhar inocente de uma criança que, aos poucos, vai percebendo a realidade à sua volta. “Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios” levou dois prêmios do Festival de Cannes, incluindo a láurea máxima, a Palma de Ouro, tendo sido ainda indicada para o Globo de Ouro e o Oscar na categoria de Melhor Produção em Língua Estrangeira. Naquele ano o vencedor do Oscar foi outra obra política, “A História Oficial”, de Luiz Puenzo, retratando a violência da ditadura militar na Argentina.
“O Ano que Meus Pais Saíram de Férias” trata da dor da ausência dos pais e, depois, do sentimento de perda. Mas vê-lo somente sob essa ótica torna-se uma visão restrita. O enredo se abre, em leque, por diversos temas, como a relação entre culturas, a descoberta do mundo e da amizade, o significado de humanismo, a dor do exílio, a transição precoce da infância para a adulta, a consciência como valor da existência.
O enredo, ambientado em 1970 quando a seleção brasileira ia derrubando adversários e caminhando para a conquista da Copa Mundo de Futebol pela terceira vez, acompanha a jornada do garoto Mauro (Michel Joelsas), de 12 anos. Levado pelos pais de Minas Gerais para São Paulo a fim de passar uma temporada com o avô (Paulo Autran, em rápida aparição), o qual tem um ataque cardíaco quando eles estão a caminho. Sozinho no bairro de Bom Retiro, o qual abriga várias comunidades estrangeiras – judeus, italianos, entre outros, Mauro, sem ter consciência da situação política vivida pelo país – e mesmo pelos país -, é ajudado por um senhor judeu, Shlomo (Germano Haiult), ao mesmo tempo em que faz amizade com outras crianças do lugar, num processo de descoberta da vida.
Concorrência no Oscar
O Ministério da Cultura já informou à Academia de Hollywood a escolha de “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” para representar o Brasil. A partir de agora terá que executar diversas etapas até o dia 22 de janeiro, quando será divulgada as cinco produções estrangeiras selecionadas. A concorrência é grande e de qualidade. A cerimônia da 80ª. entrega do Oscar, novamente comandada pelo jornalista e comediante Jon Stewart, ocorre em 24 de fevereiro.